Colapso do Ueno Bank, perda de apoio dentro do Partido Colorado e questionamentos sobre recursos públicos precipitaram a saída do presidente. Vice Pedro Alliana deve assumir o comando do país em um cenário de instabilidade política e econômica.
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou nesta quinta-feira (5) sua renúncia ao cargo, em meio à crise financeira provocada pelo colapso do Ueno Bank e ao avanço de um processo de impeachment no Congresso Nacional. A decisão abre uma nova etapa na política paraguaia e coloca o vice-presidente Pedro Alliana como principal nome para assumir o comando do país até o fim do atual mandato, previsto para agosto de 2028.
A saída de Peña ocorre em um dos momentos mais delicados de seu governo, iniciado em 2023. O presidente enfrentava pressão crescente da oposição, protestos de clientes do banco e, principalmente, a perda de apoio de integrantes de seu próprio partido, a Associação Nacional Republicana (ANR), conhecida como Partido Colorado.
O anúncio foi feito por meio de um vídeo divulgado nas redes sociais. Peña afirmou que decidiu deixar a Presidência pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas.
Na carta de renúncia encaminhada ao Congresso, o presidente também destacou a necessidade de garantir a devolução dos recursos aos cidadãos que confiaram suas economias ao sistema financeiro paraguaio.
Crise do Ueno Bank desencadeou pressão sobre o governo
O principal fator que levou à renúncia foi a crise do Ueno Bank, instituição financeira digital que teve suas operações interrompidas após problemas de solvência identificados pelas autoridades reguladoras.
A intervenção deixou aproximadamente 2,9 milhões de clientes sem acesso imediato aos próprios recursos, provocando uma onda de insatisfação popular e manifestações contra o governo.
A instituição administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos de órgãos estatais e fundos ligados à previdência e à saúde. A dimensão do problema ampliou os questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro e a relação entre o banco e integrantes do governo.
Peña também passou a enfrentar questionamentos sobre seus vínculos anteriores com o Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank. O presidente havia sido investidor da holding ligada à instituição até março de 2025.
A oposição acusou o governo de possíveis conflitos de interesse e de falhas na fiscalização dos recursos públicos. As acusações, no entanto, ainda precisam ser apuradas pelas autoridades competentes e não representam, por si só, comprovação de responsabilidade criminal do presidente.
O caso ganhou dimensão política ainda maior depois que o presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, também deixou o cargo. A crise resultou ainda na detenção de oito executivos do banco e no congelamento de ativos relacionados à investigação.
Congresso e sucessão presidencial
A renúncia foi apresentada enquanto a Câmara dos Deputados discutia a abertura de um processo de impeachment contra Peña. A crise provocou uma ruptura no apoio político ao presidente, com parlamentares do próprio Partido Colorado sinalizando apoio à sua destituição.
Segundo informações da Associated Press, a Câmara dos Deputados aprovou o impeachment por 78 votos a zero, pouco depois do anúncio da renúncia. O Senado ainda precisa deliberar sobre o processo, enquanto o Congresso deverá formalizar os procedimentos relacionados à saída do presidente.
Com a saída de Peña, o vice-presidente Pedro Alliana é apontado como sucessor constitucional. A expectativa é de que ele assuma a Presidência e conclua o mandato até 15 de agosto de 2028.
A mudança no comando do Executivo, entretanto, não encerra automaticamente a crise. O novo governo terá de lidar com a recuperação da confiança no sistema financeiro, a pressão por investigações e a necessidade de reorganizar a relação entre o Executivo e o Congresso.
Quais são os possíveis impactos para o Paraguai?
A renúncia de Santiago Peña pode representar um divisor de águas na política paraguaia. O país, tradicionalmente marcado pela força do Partido Colorado, enfrenta agora um teste de estabilidade institucional e de credibilidade das estruturas públicas.
Entre os principais desafios estão:
O Paraguai vinha sendo apontado como um destino de interesse para investimentos na América do Sul, impulsionado pelo crescimento econômico e pela estabilidade fiscal. O escândalo envolvendo o Ueno Bank, porém, pode ampliar as dúvidas sobre a fiscalização financeira e a influência política nas instituições.
Os rumos do país vizinho
A saída de Peña coloca o Paraguai diante de dois caminhos possíveis. O primeiro é uma transição institucional conduzida por Pedro Alliana, com foco na recuperação econômica, na transparência e na preservação da estabilidade política.
O segundo cenário envolve o aprofundamento da crise, caso as investigações sobre o Ueno Bank revelem novas irregularidades ou se a mudança de governo não for suficiente para recuperar a confiança da população.
A renúncia também pode abrir espaço para disputas internas no Partido Colorado, que mantém forte influência sobre a política paraguaia. A capacidade de Alliana de conduzir o governo e responder às demandas da sociedade será determinante para o futuro da administração.
Para o Brasil, especialmente Mato Grosso do Sul, a situação merece atenção. O Paraguai é um parceiro estratégico nas relações comerciais, na integração regional e nas atividades econômicas da fronteira. Eventuais mudanças na política econômica ou na estabilidade institucional do país vizinho podem repercutir nas relações bilaterais.
Por enquanto, o principal desafio do Paraguai será garantir uma transição constitucional, preservar a estabilidade do Estado e responder à crise financeira que levou à saída de Santiago Peña.
A renúncia encerra antecipadamente a trajetória de Peña na Presidência, mas abre uma nova etapa de incertezas. O futuro político e econômico do país dependerá das decisões do Congresso, da atuação do próximo governo e dos resultados das investigações sobre o sistema financeiro.
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