Há exatamente dez anos, o asfalto de Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia que divide quintais com a sul-mato-grossense Ponta Porã, tornava-se o cenário de uma das execuções mais cinematográficas e consequentes da história do crime organizado sul-americano. Em 15 de junho de 2016, Jorge Rafaat Toumani, o empresário que ostentava o título de Rei da Fronteira, sucumbia a uma metralhadora .50, capaz de derrubar aeronaves.
Hoje, ao olharmos pelo retrovisor de uma década, o episódio não se revela apenas como um assassinato, mas como o Marco Zero de uma guerra nacional que redesenhou o mapa da violência no Brasil. O Portal Voz da Fronteira relembra o fim de uma e também analisa a fragmentação do poder na região.
O atentado marca uso inédito de uma metralhadora antiaérea Browning .50, montada na parte traseira de uma Toyota Hilux adaptada. O armamento foi capaz de perfurar a blindagem nível 6 do Hammer H3 de Rafaat. Foram mais de 200 disparos em plena área central da cidade vizinha a Ponta Porã, resultando na morte imediata do empresário com 16 perfurações.
Rafaat não era um traficante comum. Ele operava como um "regulador". Embora condenado pela Justiça brasileira, ele mantinha um status de empresário legítimo no Paraguai, provendo emprego e, paradoxalmente, uma certa ordem violenta na região. Ele impedia que as grandes facções brasileiras se estabelecessem com soberania sobre as rotas de escoamento.
O uso da metralhadora antiaérea naquela noite não foi apenas para garantir a morte de Rafaat; foi um recado de poder de fogo. A perfuração da blindagem do seu Hammer H3 simbolizou a quebra da última barreira que separava o crime organizado corporativo de São Paulo e Rio de Janeiro do controle direto das plantações de maconha e dos entrepostos de cocaína andina.
A morte de Rafaat gerou um vácuo de poder imediato. O que se seguiu foi uma sucessão de tentativas de hegemonia entre a Linha Internacional, que divide duas cidades consideradas gêmeas, Pedro Juan Caballero, do lado paraguaio e Ponta Porã, em terra brasileiras.
Ao longo de uma década, diversos nomes tentaram herdar o trono de "Dono da Fronteira", mas o modelo de "coronelismo" de Rafaat mostrou-se obsoleto diante da estrutura profissional das facções.
Até 2016, as duas maiores facções brasileiras mantinham uma aliança pragmática. A disputa pelo espólio de Rafaat e o controle das rotas paraguaias foi o fator determinante para o fim dessa paz. A partir dali, o Brasil assistiu a massacres em presídios (como os de 2017 no Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte) que eram, em essência, ecos dos tiros disparados em Pedro Juan Caballero.
Da monarquia à oligarquia
Dez anos depois, a fronteira não possui mais um "Rei". O modelo atual é o de Oligarquia Transnacional. O crime na Linha Internacional agora é gerido por conselhos e sintonias das facções, com uma presença massiva de "soldados" que se escodem escritórios de crimes entre as duas cidades .
Para o Mato Grosso do Sul, e especificamente para cidades como Dourados — que serve de entreposto logístico —, a herança dessa década é a sensação de vigilância constante. A fronteira tornou-se um laboratório de segurança pública, onde as polícias Federal e Rodoviária Federal, junto ao Exército, tentam conter um fluxo que hoje é muito mais sofisticado do que na era Rafaat.
A execução de 2016 provou que o crime organizado brasileiro havia atingido a maturidade logística. Hoje, em 2026, a fronteira é o coração pulsante do Narcosul. A morte de Jorge Rafaat foi o fim do crime romântico e regionalista para dar lugar ao narcotráfico globalizado, onde Pedro Juan Caballero e Ponta Porã são apenas peças em um tabuleiro que conecta os Andes ao Porto de Santos e, consequentemente, à Europa e África.
Dez anos depois, as marcas de bala na Linha Internacional podem ter sido apagadas, mas a estrutura do crime que elas ajudaram a construir nunca esteve tão sólida.
Negociava com o PCC e com CV
Segundo análise do professor Juan Martens ao Voz da Fronteira, Juan Martens doutor em Criminologia, professor na Universidad Nacional de Pilar e pesquisador no INECIP-Paraguay, Rafat era um grande empresário da fronteira que, com muita desenvoltura, transitava entre os limites do legal e do ilegal.
No entendimento de do professor, que é uma das principais referências em crime organizado e segurança pública na América do Sul, É como uma versão melhorada do Fuaad Jamil, porque deixou de ser um contrabandista tradicional para se tornar um intermediário com grandes redes criminosas brasileiras.
“Ele transitava entre a pecuária, o comércio, até mesmo a criação de universidades, mas ao mesmo tempo negociava com o PCC, com o Comando Vermelho. Ele era um articulador. Em segundo lugar, ele era uma pessoa que se apresentava como latifundiário, como um senhor feudal da fronteira, o que acabou levando ao seu desaparecimento porque ele representava um obstáculo para esses grandes grupos que disputavam cada vez mais o controle territorial”, fundamementa Maartens.
Controle de governança criminosa
Ainda segundo o pesquisador, Rafat exercia controle de governança criminosa, inclusive incorporando tecnologia, porque, como lembramos, Rafat tinha câmeras de vigilância instaladas na cidade e a 60 quilômetros de Pedro Juan Caballero, no cruzamento de Bellavista, na Rodovia PY 05.
“Ele tinha controle praticamente absoluto. E sua morte aumentou a influência de organizações internacionais, transnacionalizou o crime organizado no Paraguai, intensificou a violência e até a expandiu em nível local. Outra questão sobre a qual eu estava refletindo é a sua falta de aspirações políticas diretas”, pontua o professor.
“Como Rafat exercia controle absoluto sobre certos espaços territoriais e instituições, ele não tinha aspirações de entrar para a política. Portanto, estamos lidando com uma pessoa que financiava, mas não tinha aspirações diretas. Essa é uma abordagem diferente hoje em dia, digamos, em comparação com outro grupo que tem essas aspirações. Ele também tinha legitimidade social, uma vez que praticava filantropia”, conclui.
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